Montague Rhodes James: a influência literária para Lovecraft e para o filme “Hereditário”

No clássico ensaio “O Horror Sobrenatural na Literatura”, escrito em 1927 por Howard Phillips Lovecraft, quatro escritores são apontados pelo mestre de Providence como sendo os mais valiosos expoentes do horror literário britânico. Lovecraft reconhece a importância ímpar de Arthur Machen, Algernon Blackwood, Lord Dunsany e Montague Rhodes James para o desenvolvimento do horror não somente no subgênero das ghost stories como também na formação das ideias literárias que constituirão o horror cósmico.

Montague Rhodes James nasceu na região inglesa do Kent em 1862 e faleceu em 1936, um ano antes de Lovecraft. Em seu famoso ensaio, Lovecraft fala que:

«O Dr. James, apesar de seu leve toque, evoca terror e repulsa nas formas mais perturbadoras; e ele certamente permanecerá como um dos poucos, verdadeiros mestres e criadores desse gênero literário sombrio. » 

Historiador e bibliógrafo, reitor por décadas do Eton College em Bershire, Inglaterra, M. R. James era um estudioso em paleografia, arqueologia, manuscritos medievais e história de catedrais, porém foi como escritor de histórias de fantasmas que ele ficou mais conhecido na posteridade. Em seus contos, ele conseguia descrever nos menores detalhes a competência do especialista, e este tipo de narração em que a descrição científica se misturava com realidades ocultas influenciou decisivamente Lovecraft.

As criações literárias de James foram inovadoras se comparadas às clássicas histórias de fantasmas de estética gótica devido à valorização do elemento esotérico e inefável na construção da narrativa. Desta maneira, as aparições espectrais de James representavam horrores muito maiores do que uma mera tensão psicológica. Eram, de certa maneira, indefiníveis, e tinham características inumanas e irracionais que dialogariam muito bem com a formação do horror cósmico. O mundo da magia negra é um tipo de mundo ao contrário, no qual o caos reina e as proporções humanas não são reconhecidas.

Outro tema caro a James é a falta de controle do homem sobre as forças da natureza, o que se traduz na representação simbólica deste mesmo homem como sendo uma marionete ou um pequeno boneco, cujo destino último está nas mãos de entidades absolutamente mais potentes e desconhecidas. Por exemplo, em Os Ratos (”The Rats”, publicado em 1929), um de seus contos mais célebres, o motivo do horror é um tipo de espantalho vivo, que na verdade era um homem que, devido a uma maldição, foi transformado numa espécie de fantoche nem morto nem vivo condenado a existir nessa condição para sempre.

Dialogando com a temática hoffmanniana, que também utilizava esta mesma ideia da impotência do ser humano perante o universo, temos o conto A Casa das Bonecas Assombradas (“The Haunted Doll’s House”, publicado em 1923). Aqui é central o papel do elemento que aguça as percepções do protagonista para a visão inefável de um outro mundo, em colisão com o nosso. Será um modelinho de navio à vela que, tomando vida própria, vai conduzir o protagonista em um mundo em miniatura à parte, com leis próprias, que, neste conto, é uma casa de bonecas – algo muito em voga na era vitoriana da Inglaterra.

Este conto foi, sem sombra de dúvidas, uma das maiores inspirações para Ari Aster, que dirigiu o clássico moderno do horror “Hereditário”, filme lançado quase cem anos depois do conto de Montague Rhodes James. Escreve James no conto:

“Até as primeiras horas da manhã ele não se perguntou por qual razão, embora não houvesse luz na sala, a casa de bonecas em cima da mesa estava cercada pela mais completa luz. Mas era assim. Parecia que a lua cheia redonda iluminava a fachada de uma grande casa de pedra branca – assim pareceria se vista há 400 metros de distância; e, no entanto, todos os detalhes eram fotograficamente perfeitos. Havia também árvores por toda parte, árvores espreitando por trás da capela e da casa. Para Dillet, parecia cheirar até o perfume de uma noite fria de setembro [...]. Finalmente, e isso foi outro golpe, ele percebeu que, acima da casa, ele estava olhando não para as paredes do quarto com pinturas e tudo, mas para o azul profundo do céu noturno. Havia luzes, mais de uma, nas janelas, e Dillet entendeu imediatamente que não era uma casa de quatro quartos com fachada removível, mas uma casa com numerosos cômodos e escadas ... uma casa real, como vista através de um telescópio invertido. "Você quer me mostrar algo, por acaso?" ele murmurou para si mesmo, sem tirar os olhos das janelas iluminadas. Na vida real, ele pensou, eles teriam cortinas e persianas, não há dúvidas; mas, nesse caso, a visão do que estava acontecendo naquelas salas não era interceptada por nada. »

Além da casa de bonecas, que parecia ter vida própria, toda a trama do conto de James antecipa muitos dos temas tratados no filme de Ari Aster. No espetáculo sugestivamente sobrenatural da casa de bonecas, o protagonista Dillet rememora uma tragédia ocorrida muitos anos antes em uma mansão do bairro. Um casal, depois da morte do pai de um deles, mata os próprios filhos para poderem receber a integralidade da herança do falecido, cuja vontade expressa incluía a participação dos netos na distribuição testamentária. Além disso, o tipo do crime praticado parecia ter relações com a magia negra, da mesma forma como ocorre no filme “Hereditário”. A esposa no conto, assim como no filme, aparece extremamente aterrorizada devido a uma misteriosa presença, descrita assim por James:

"[...] a expressão em seu rosto era a de quem lutava com todas as forças contra um medo que ameaçava dominá-la completamente e vencê-la. Também era um rosto odioso: grande, achatado e ardiloso. »

É exatamente esta presença demoníaca que se torna objeto de obsessão da mulher a ponto de ela assassinar os próprios filhos, devorando-os. Depois desta passagem atroz, toda a casa começa a se agitar, luzes acendiam e apagavam incessantemente e vultos transitavam rapidamente entre as janelas. James também descreve figuras negras que seguravam tochas acesas ao redor da casa, além de outros espectros bizarros que fazem claro paralelo à conclusão do filme de Ari Aster.

 

A influência de “The Haunted Doll’s House” no filme é evidente através da narração da tragédia familiar relacionada com a magia negra, além da reevocação da casa de bonecas como sendo um microuniverso perturbador que manifesta uma realidade paralela dentro da nossa. Mesmo que em “Hereditário” o demônio evocado se tratasse de Paimon – um dos oitos governadores do inferno, representado no grimório do século XVII “A Chave Menor de Salomão” – as semelhanças maiores estão na hereditariedade maldita do patriarca, no conto, e da matriarca, no filme, e na invocação de entidades infernais que reivindicam como suas propriedades os filhos da família.
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Edições consultadas:
  • Montague Rhodes James, Collected Ghost Stories, Wordsworth Editions, 1992.
  • Howard Phillips Lovecraft, Supernatural Horror in Literature, Dover Publication, 1973.

4 comentários

  • Opa! Mais um livro pra lista!
    Hereditário é um dos melhores filmes atuais de terror,na minha opinião, e eu sou exigente pra gostar de filmes desse gênero, muitas vezes sinto que exageram demais no cliché e Jump Scare.

    Fernanda Huguenin da Costa
  • Opa! Mais um escritor
    pra lista! Adoro histórias com fantasmas e Hereditary foi um dos melhores filmes de terror que assisti, e eu sou muito exigente com filmes de terror rs.

    Fernanda Huguenin da Costa
  • Opa, mais um escritor pra lista rs!
    Amo enredos de fantasmas. 😍

    Fernanda Huguenin
  • Esse é um autor que merecia pelo menos uma coletânea digna em português. Não há quase nada de M R James publicado em nossa língua, exceto alguns poucos contos esparsos em coletâneas do gênero. Triste, pois trata-se de um autor importantíssimo para o gênero fantástico, assim como Machen, Blackwood, Bierce, Lovecraft ou mesmo Poe

    Moisés Isaias

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