Os Penny Dreadfuls

O termo “Penny Dreadful” apareceu pela primeira vez na Grã Bretanha no século 19. Ele se tornou a mais atrativa e barata forma de literatura consumida pela juventude da época. A edição de 1874 do “Slang Dictionaty”, escrito por John Canden Hotten, definia os Penny Dreadfuls como sendo publicações baratas que dependiam mais do sensacionalismo do que do mérito literário ou artístico para alcançar o sucesso. O próprio termo trazia à mente aquela visão meio estereotipada de escritores de baixa qualidade, contratados pra entregar trabalhos com o deadline apertado, sentados em mesas escuras, sem tempo para revisar o texto ou corrigir erros gramaticais. A maioria dessas estórias iam quase sempre diretamente para a mesa do tipógrafo – e, pouquíssimo tempo depois, já eram publicadas e vendidas nas ruas para milhares de leitores pertencentes às classes trabalhadoras.

 

Os Penny Dreadfuls vitorianos foram imensamente influenciados pela literatura gótica do final do século 18. Livros como “O Castelo de Otranto”, de Horace Walpole, e o “Monge”, de Matthew Lewis, fascinaram leitores e editores com suas temáticas de freiras sedutoras, castelo assombrados, passagens secretas e monges depravados. Entre 1790 e 1830 a bem-sucedida editora britânica MINERVA PRESS lançou mais de 17 mil títulos direcionados aos leitores das classes média e alta, que rapidamente ficaram viciados no tipo de leitura que as novelas góticas ofereciam. Novelas como “The Haunted Castle”, escrita em 1794 por George Walker e “The Animated Skeleton”, escrito em 1798 por um autor desconhecido, chegaram a ocupar os primeiros lugares de venda na Inglaterra. Esta mesma editora ainda ficou conhecida por ter publicado diversas mulheres autoras no final do século 18, ganhando notoriedade por também publicar seis das sete novelas que Jane Austen citou em sua obra “Northanger Abbey”.

Porém, as classes populares não tinham condições econômicas de comprar esses livros. Ao invés disso, se cadastravam em uma biblioteca circulante e pegavam emprestados um número pré-fixado de livros anuais. O valor do cadastro girava em torno de 4 libras esterlinas o ano, que era muito caro pra época, visto o tempo de leitura de cada livro e o tamanho deles. Foi aí que editores se deram conta que existia um mercado gigantesco que estava sendo sub-representado na indústria editorial e, tendo como objetivo contemplar essa massa cada vez maior de leitores e leitores em potencial que estavam inseridos nas classes proletárias, foi criado o formato Bluebook. O Bluebook reduziu novelas e livros inteiros em curtos contos de horror, geralmente com 50 páginas cada, encadernados à mão e em capas azuis baratas – daí o nome Bluebook.

Comprar um Bluebook era mais econômico do que as outras opções disponíveis à época. Os contos eram lidos rapidamente e ainda assim transmitiam as emoções e a adrenalina típicas das novelas góticas. Ao se estabelecer no mercado, a popularidade do Bluebook estabeleceu uma nova tendência entre os editores, que agora passaram a direcionar seus esforços às necessidades e demandas deste novo público leitor, que era extremamente numeroso. Capitalizando em cima do desejo das classes trabalhadoras por excitação e ficção escapista, os Bluebooks se tornaram a primeira forma de literatura da cultura popular que democratizou verdadeiramente os livros na Grã-Bretanha.

Quando as técnicas de impressão evoluíram um pouco mais e o custo do papel ficou ainda mais barato, as inscrições nas bibliotecas circulantes e as vendas de Bluebooks começaram a declinar, pois passou a surgir um novo e ainda mais acessível formato de histórias de terror: os Penny Dreadfuls.

 penny dreadful

Impresso em papel barato pela então nova prensa rotativa a vapor, os Penny Dreadfuls custavam apenas 1 centavo, daí o nome Penny Dreadful – centavo aterrorizante. Este valor era imensamente mais em conta do que uma subscrição numa biblioteca circulante ou até mesmo do que um Bluebook. Optar por um Penny Dreadful ainda tinha uma outra atração pra esses leitores: posse imediata. Cada conto trazia entretenimento imediato para os mau pagos e recém alfabetizados membros da classe proletária britânica. Com um vocabulário mais limitado e enredos mais sensacionalistas, os Penny Dreadfuls capitalizaram em cima da baixa instrução desses trabalhadores e de seus desejos por contos chocantes “fáceis de acompanhar”, que permitiriam que eles escapassem um pouco da labuta pesada diária nas fábricas e nas zonas periféricas de Londres. Segundo Springhall, os Penny Dreadfuls serviram para substituir a realidade crua desses trabalhadores com contos excitantes, encontros dramáticos, emoções extremas e detalhes macabros”.

Disseminando contos de morte, tortura, assombrações, sexo tétrico e crime, os Penny Dreadfuls foram propagandeados no jornal “Sunday Chronicle” de 1841 assim: “são contos de interesse mais absorvente, que prendem a atenção do leitor com uma força galvânica. Esses contos são repletos de mistério, horror, amor e sedução!”. Que trabalhador ou jovem de classe baixa da época poderia ignorar tanta coisa por apenas 1 centavo? E os títulos ainda eram totalmente sensacionalistas e pareciam ser idealizados com o intuito mesmo de chamar a atenção imediata: “O Pai Maníaco, ou a Vítima da Sedução”, de 1841, “O Navio da Morte ou a Noiva do Pirata e o Maníaco das profundezas”, de 1842 e “Varney o Vampiro, ou a Festa de Sangue”, de 1845, são alguns exemplos dessas produções escritas que garantiam sexo, horror e violência.

Um outro exemplo típico da prosa dos Penny Dreadfuls foi o livro “The Death Grasp” escrito por Thomas Peckett Prest em 1841. Repleto de descrições sensacionalistas típicas do gênero, “The Death Grasp” apresenta um homem culpado, uma maldição fantasmagórica e várias vinganças terríveis. Nos momentos iniciais, Adolphe é amaldiçoado pelos lábios do home que ele acabava de ter matado. O morimbundo diz:

“Peace shall henceforth be a stranger to thy breast! In the festive scene – in thy waking hours, and in thy fevered slumbers, my spirit shall ever more be with thee. My ghastly cheek, my bleeding form, my filmy eye, shall be thy constant objects; and, as dying I clutch thee now, so, in life and in death, shall my cold, clammy hands grope thee”. A maldição do homem morimbundo se realiza, pois Adolphe sente continuamente a o aperto da mão fria da assombração vingativa nas semanas seguintes. “Wheter he slept, he knew not; but the horrible circunstances that aroused him could never be erased from his memory. A hand, cold as the winter’s ice, and damp and clammy with the moisture of death, clasped him, with the vehemence of expiring agony! God, God! How can we portray the horror that paralyzed his whole frame?”

Enredos sensacionalistas como o de “The Death Grasp” ajudaram o escritor Prest a se tornar um dos mais prolíficos escritores da era dos Penny Dreadful: 4 de suas novelas foram serializadas cada uma durante 2 anos, um feito sem precedentes.

 

Com mais de 65 livros escritos, Thomas Peckett Prest ajudou seu editor, Edward Lloyd, a fazer uma fortuna através das vendas de seus penny dreadfuls. Infelizmente ele não recebia quase nada das vendas de seus livros, e Peckett acabou morrendo com tuberculose e pobre aos 49 anos de idade.

Um dos Penny Dreadfuls mais vendidos da década de 1860 foi “The Wild Boys of London”, que relatava violência sexual combinada com baldes de sangue. A prosa do autor anônimo é típica do estilo sensacionalista encontrado no gênero. “The Wild Boys of London” se tornou tão popular que a série foi sendo publicada durante 103 semanas e alcançou as 800 mil palavras: O dobro da obra “E o vento levou” de Margaret Mitchell para se ter ideia. Apesar de parecer excessivo, “The Wild Boys in London” e “The Death Grasp” não são únicas no genero. São representações típicas da prosa sensacionalista de então. Quanto mais as vendas continuavam a subir, as publicações a aumentar e as editoras de livros baratos a abrir, mais apareciam novos escritores para oferecer seus esforços para criar enredos e estórias com temática sobrenatural e de violência.

Reconhecendo que um título sensacionalista ajudava na venda de livros, algumas obras foram publicadas com o título tão longo que acabavam por contar praticamente o enredo todo. Foi o caso deste penny dreadful, escrito em 1846 por um autor anônimo: “Mary, a empregada da pousada; Uma narrativa interessante; Detalhamento do modo singular em que ela descobriu que seu amante era um ladrão e assassino; seu julgamento e execução; com suas andanças desamparadas e destituídas e morte infeliz”. Sim, o título é esse. No original: “Mary, the Maid of the Inn; An Interesting Narrative; Detailing the Singular Way She Discovered Her Lover to Be a Robber and Murderer; His Conviction ... and Destitute Wanderings, and Unhappy Death”. O título já contava praticamente a história inteira, exceto pelo fato que Mary morre louca, congelada até a morte. 

Quanto mais os penny dreadfuls ganhavam popularidade, mais editores caça-níquel surgiam a cada canto da Inglaterra. Somente em 1840, quase 50 novas editoras abriram suas portas em Londres, com o objetivo de produzir material para o gosto das classes populares. Devido aos conteúdos de alguns periódicos e às práticas questionáveis, esses editores desenvolveram reputações dúbias. De acordo com a crítica mais generalizada, esta tinha se tornado a era da depravação geral na história da ficção popular, e a Newsgate Publishing Company, uma das editoras que publicava penny dreadful na época, foi chamada de “gangue cujos lucros são derivados da disseminação de literatura impura”.

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A fama não era de todo indevida, pois, pra dar um exemplo, o editor Edward Lloyd começou seu império publicando versões plagiadas de novelas de Charles Dickens. Mesmo Thomas Peckett Prest escreveu uma versão plagiada da famosa novela de Dickens “The Pickwick Papers”, intitulada de “The Penny Pickwick”. Utilizando quase o mesmo título e os mesmos nomes dos personagens, o leitor não tinha como saber qual era o original e a edição plagiada. Sendo muito mais barata do que a versão original de Dickens, “The Penny Pickwick” se tornou um estrondoso sucesso, vendendo mais de 50 mil cópias. Os plágios aumentavam na mesma proporção que as vendas desses títulos. “Oliver Twist” ganhou uma versão plagiada chamada “Oliver Twiss”, a trama de “A Christmas Carol” foi roubada e renomeada “A Christmas Ghost Story”. O próprio Charles Dickens tentou processar essas editoras, mas sem sucesso.

Além de tudo, os escritores dos Penny Dreadful eram extremamente mal pagos, como já mencionei anteriormente. Na prática recebiam só pouca coisa mais do que a classe trabalhadora ganhava na época. Alguns editores da época inclusive afirmavam abertamente não pagar os escritores. Além desses editores continuarem a plagiar centenas de novelas e ilustrações para poderem capitalizar indevidamente, também começaram a plagiar as próprias narrativas góticas clássicas. “Os Mistérios de Udolpho” teve diversas versões plagiadas como “Angela, a órfã”, “O rapaz cigano”, “A maldição de Almira” e por aí vai, só pra dar um exemplo. O mesmo aconteceu com “O Monge” de Matthew Lewis e “Ivanhoè” de Walter Scott, entre outros.

Apesar das práticas antiéticas de muitos editores dos Penny Dreadfuls, alguns títulos se tornaram tão populares que continuavam a ser publicados periodicamente por muitos anos: cada semana saía um capítulo diferente. Essa publicação contínua e extensa às vezes ia além da própria capacidade e contra a própria intenção do autor. Era garantido o pagamento ao autor enquanto a obra fizesse sucesso e mantivesse a atenção do público. Quando um título começava a cair em vendas, então a obra simplesmente era retirada de circulação sem nenhum tipo de fim que pudesse concluir o enredo e era imediatamente substituída por outro. O tipo de pressão para que o autor produzisse, capítulo após capítulo,  um thriller que mantivesse a atenção perpétua do leitor afetou decisivamente a qualidade de muitas dessas obras. Isso acabou dando para os Penny Dreadfuls a reputação de ter iniciado a literatura trash na era vitoriana.

 

O melhor exemplo das limitações que um escritor de Penny Dreadful tinha em seu trabalho pode ser facilmente encontrado nos 250 capítulos do livro “Varney, the Vampire; or, The Feast of Blood”. Novela publicada em periódicos entre os anos de 1845 e 1847, Varney é a primeira novela de vampiros escrita em língua inglesa. Fez um enorme sucesso e vendeu mais de 40 mil cópias. Antecipando Drácula em quase meio século, e sendo também uma clara influencia ao romance de Bram Stoker, o criador de Varney, o escritor James Malcom Rymer, foi responsável por ter criado a figura do vampiro que conhecemos hoje.

A novela foi elogiada e criticada com o passar dos anos. Jess Nevins, por exemplo, diz que Varney é mais emocionalmente reconhecível e mais dimensional que Sweeney Todd e o próprio Drácula. Também diz que Varney é o monstro mais complexo e emocionalmente identificável do século 19. Outros críticos porém dirão que a obra é estruturalmente incoerente e é uma monstruosidade de 800 páginas. De fato, existem diversos problemas na escrita de “Varney”, que foi publicado originalmente com uma série de erros. Inexplicáveis mudanças nos nomes dos personagens, parágrafos escritos em meia sentença e descrições inconsistentes eram alguns desses erros.

Alguns deles são justificáveis. Rymer estava escrevendo simultaneamente “Varney” com outras 19 novelas, incluindo a Sweeney Todd - outro famoso penny dreadful da época que deu origem ao filme de Tim Burton. Devido a algumas mudanças na prosa que são verificáveis no andamento do livro, é evidente que Rhymer, mesmo sendo responsável pela escrita da maioria dos capítulos de “Varney”, não foi o seu único contribuidor. O outro escritor de penny dreadfuls, Thomas Peckett Prest já foi apontado como sendo escritor de alguns outros capítulos do livro.

De fato, alguns escritores eram substituídos de última hora no processo de publicação de alguns dos penny dreadfuls. Por não estarem familiarizados com a trama que já tinha começado a ser escrita, muitos acabavam por continuar a história com lacunas e erros, que às vezes abundavam. Some a isso o deadline apertado para escritores mal pagos (quando pagos), editores mais preocupados com lucros rápidos que com qualidade e é fácil entender por qual razão os penny dreadfuls são mais conhecidos pela sua má escrita do que pela sua importante contribuição à cultura pop vitoriana.

Os penny dreadfuls passaram a entrar em declínio mais pro final do século 19, quando as novelas sensacionalistas começaram a surgir – podemos citar aqui “The Woman in White” como o exemplar mais notável desta linha. Quando o gosto geral passou a se sofisticar um pouco mais, os Penny Dreadfuls começaram a ser esquecidos. As vendas diminuíram e novas formas de ficção escapista tomaram conta do cenário editorial.

De qualquer maneira os penny dreadfuls nos legaram pérolas como “Varney, o Vampiro”, “Sweeney Todd”, “O Monge Negro” e outras estórias que foram marcantes para o horror. Também podem ser considerados como a primeira onda de popularização real do horror, que contribuiu fortemente para vários clássicos mais respeitados do gênero que viriam a seguir. Produções mais recentes como a minissérie “Penny Dreadful”, estrelada por Eva Green mostram que, apesar de tudo, aquelas estórias conquistaram seu espaço no cenário cultural vitoriano e foram além dele.

 

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